Prisão dentro de si

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Prisão dentro de si

Fico me perguntando: Qual é o nível e a capacidade de imaginação da mente? Ou, para os
mais espiritualizados, qual é o nível de consciência que é possível acessar para
obter as respostas sobre quem realmente somos?

Sinto que boa parte da minha vida foi declarar que eu estava em estado de prisão. Estar presa te gera muitos conhecimentos entre pensamentos e reflexões. Você desenvolve uma certa maturidade, mas percebi que conhecimento sem ação se torna apenas um excesso inútil. É aí que a frustração começa… Todo aquele aprendizado guardado e a sensação de incapacidade de agir ou dar um passo adiante fazem tudo parecer impossível.

É como se houvesse uma limitação invisível, como se eu não tivesse permissão para avançar exatamente como em uma prisão. Nos colocamos nesses cenários experimental e mental, quando deixamos nossas crenças definir nosso presente, quando aceitamos quem somos sem entender mais profundamente sobre nós mesmos. Então, para me declarar livre, precisei compreender as evidências e provas que sustentavam minha liberdade e reconhecer o papel que desempenhei nessa jornada. Eu precisei de uma pá e começar a escavar o mais profundo de mim, porque se eu me coloquei nesse buraco, tinha que ter uma boa razão.

“Rebobinar a vida pode ser cansativo e, muitas vezes, dolorosa. Você pode sentir que está atrasando o fluxo natural dos dias, mas, na verdade, está apenas resgatando a única essência que realmente importa: o conhecimento da alma.”

A jornada da escavação

Aprendi e pratiquei o estado estratégico: usar a mente a meu favor para obter o mapa mental ou melhor, a planta baixa da prisão. Escavar sem direcionamento é como viver uma vida sem propósito. Pode até preencher alguns dias com momentos felizes, mas não preencherá a alma. Eventualmente, você sentirá que está faltando algo. Talvez tente compensar com saídas, pessoas, viagens… Mas, no momento em que estiver sozinha, a ausência de algo verdadeiro irá emergir e haverá uma barreira que continuará impedindo você de ser realmente feliz.

Meus recursos nesse processo foram as grandes consciências que aprendi com pessoas, as práticas de meditação mindfulness, as técnicas holísticas, a escrita, a leitura e inúmeros momentos de solidão. Afinal, eu estava em um estado de prisão.

Li um livro durante essa jornada que contribuiu para esse processo: Essencialismo. Ele me ajudou a refletir sobre o que realmente é essencial em nossas vidas. Muitas vezes, acumulamos tantas coisas, compromissos, responsabilidades e expectativas, que acabamos nos afastando do essencial e da nossa essência. Para descobrir o que é essencial, é preciso reunir todos os fatos e evidências, pois o “essencial” frequentemente está oculto, e a sensação pode ser de que estamos perdendo tempo. Mas, na verdade, ao descobrir o que é essencial, ganhamos clareza, foco e agilidade para alcançar nosso verdadeiro objetivo, a nossa única coisa.

Estar sozinha me deu tempo e espaço para reunir todas essas informações, meditar diariamente e registrar cada pensamento. Também pude aplicar em mim as técnicas que aprendi ao longo dos últimos cinco anos, como Reiki e ThetaHealing, além de passar por sessões com uma psicanalista, Barra de Access e Constelação Familiar.

Esse processo me trouxe duas grandes percepções sobre a vida. Primeiro, que não precisamos enfrentar tudo sozinhos — podemos contar com o auxílio de outras pessoas e profissionais. Segundo, que aprendi a confiar mais na minha intuição e na espiritualidade dentro de mim, o que me trouxe mais confiança e fé na minha própria verdade.

A Profundidade – A causa

E quando você descobre que é o ego, que cria as grades dessa prisão? Enquanto você não se conhece, não sabe quem é, não se ama… ele reage como sua personalidade sobrevivente e assume as rédeas da sua vida.

O Ego é a soma de todas as crenças e sentimentos que te protegem, mantendo segura a sua versão atual. Ele sustenta o chamado estado de sobrevivência, no qual aceitamos a vida conforme aprendemos, influenciados por pessoas, situações e autoridades. No entanto, é ele também que te aprisiona, mantendo você na zona de conforto.

Para evoluir, é preciso encarar o desafio de identificar os sentimentos-chave que sustentam essa prisão. Mas, acima de tudo, é necessário acolher cada um deles, compreender seus papéis e reconhecer a importância que tiveram no seu aprendizado. Somente assim é possível transcender a ilusão da segurança e caminhar em direção à verdadeira liberdade.

O MEDO • A CULPA • O APEGO

O medo e a culpa andam de mãos dadas. O medo paralisa suas atitudes e decisões, fazendo você se sentir incapaz ou indigno, aprisionando-o em seus próprios receios. Ele pode ser tão intenso que, em algumas situações, leva à necessidade de controle, tornando-se um mecanismo de defesa que pode até manifestar traços narcisistas. E, com isso, surge a culpa — a sensação de estar falhando como ser humano, de causar sofrimento às pessoas que ama e a si mesmo, ou de não ser a pessoa que deseja para a própria vida.

Me coloquei nesse lugar e acredito que algumas pessoas importantes que passaram pela minha vida entraram nela também. A grande questão é que esse ambiente sempre ofereceu o livre-arbítrio. Quem ficou, ficou porque escolheu ficar, talvez por falta de coragem para tomar suas próprias decisões, por falta de amor-próprio, por sentir a necessidade de cuidar mais dos outros do que de si mesmo ou, ainda, por acreditar que precisava estar preso ou carregar o peso de uma punição.No caso do apego nunca foi sobre aceitar essa vida, mas reconhecer o apego permitiu que eu encontrasse as peças necessárias para construir o plano de ação para sair da prisão.

Meu conselho aqui não é sobre excluir sentimentos como medo, culpa ou apego, pois eles têm seu significado e fazem parte da nossa jornada. O essencial é que encontrem um lugar de harmonia dentro de nós. Afinal, sem esses sentimentos, como seria possível crescer tanto? Acolha suas crenças, pois nelas podem estar as soluções para seus desafios.

Agora, vou compartilhar algo afundo que pude ter acesso, através de técnicas de meditação:

Certo dia, acordei um pouco incomodada com meus pensamentos e, em estado de meditação profunda, minha mente foi tomada pela lembrança do meu avô materno. Ele foi preso durante a Segunda Guerra Mundial, quando morava no Japão. Levou uma facada nas costas e passou três anos como refém dos americanos em Okinawa, sua terra natal.

Foi então que comecei a juntar todas as evidências e uma grande pergunta surgiu: Será que, ao longo da minha vida, eu me coloquei no mesmo papel e padrão que meu avô?

Na minha consciência, tudo fez sentido. Eu me sentia extremamente presa nos meus relacionamentos amorosos, refém do meu trabalho, e na minha mente, nunca soube se seria capaz de me destacar, ser uma autoridade, ou até mesmo de ter sonhos. Afinal, eu vivi muito tempo sobre olhar e expectativas dos outros. Além disso, por sincronicidade, eu estava assistindo a uma série que abordava justamente um trauma pós-guerra, o que trouxe à tona sensações de desconforto e agonia. Esses fatos começaram a unir as peças do meu processo interno.

Fiquei refletindo sobre o que meu avô poderia ter vivido e como deveria ter sido desafiador a sua superação. Quantos traumas ele carregou? Quantas feridas ficaram abertas? Quantas pessoas ele viu morrer e quantas teve que matar para sobreviver? Estava aprisionado, sem liberdade de escolha, sem controle sobre onde estava, o que comia, ou até mesmo sobre seus sonhos, que deviam parecer quase impossíveis, pois ele não sabia se ainda havia uma vida além da guerra.

Com um olhar mais maduro, finalmente consegui me colocar em um estado de liberdade. E hoje, ao olhar para esse cenário, sinto que é uma honra ressignificar todos esses sentimentos dentro de mim. Não se trata de sentir pena do meu avô ou culpá-lo por me ter transmitido essa “herança negativa”. Acredito que todos nós temos o nosso próprio processo, nossas lições e aprendizados — e com meu avô não foi diferente. O importante para mim é ter a oportunidade de tornar memorável a sua história, a sua dor. Sinto gratidão por todas essas memórias pois me ajudam a criar uma versão melhor de mim, permitindo enxergar a vida sob um prisma mais amplo. Isso inclui ver a prisão sob novas perspectivas:

  1. Todos podem se colocar em um estado de isolamento, mas o que realmente importa é como você vai transformar esse espaço em seu lar. Quais recursos e fontes de felicidade você pode criar dentro dele?
  2. Não saber o que acontecerá amanhã, como em uma guerra, deve gerar muito medo, assim como não saber o resultado de uma prova ou se a vaga do emprego será sua, após uma entrevista. A mensagem é aprender a viver no agora, confiar na sua intuição e entender que o seu comprometimento e dedicação diários trarão resultados e sucesso no momento certo. O que realmente faz a diferença é o pensamento que você alimenta na sua mente agora.
  3. A solidão de estar preso pode ser devastadora, mas hoje eu entendo que, quando estamos bem com nós mesmos, podemos ser nossa melhor companhia. Trazer a solitude como parte da rotina preenche cada vez mais os dias.
  4. Precisamos ter compaixão com nossos traumas, como um soldado que, ao sobreviver à guerra, aprende com as cicatrizes que carrega. Cada trauma traz ensinamentos preciosos, nos tornando mais resilientes, mais fortes. Mas assim como em uma guerra, a paz só chega quando entendemos que os conflitos são temporários, e que a verdadeira vitória é saber que, após cada combate, a calma sempre virá. Aprenda a acolher seus traumas, entendendo que eles são passageiros, permanecem apenas até você aprender com eles. Depois, vão embora, deixando você mais preparado para seguir a vida.
  5. Perder pessoas ou precisar afastá-las de nossas vidas é, sem dúvida, um dos processos mais dolorosos, tanto em uma guerra quanto em nossa jornada pessoal. Em um campo de batalha, às vezes, é necessário fazer sacrifícios para garantir a sobrevivência e o avanço. Da mesma forma, na vida, o desapego se torna uma das leis mais essenciais para nossa evolução. Afinal, nascemos sozinhos e também morremos sozinhos. Cada partida, seja de pessoas ou circunstâncias, nos ensina a liberar o que nos prende, a abrir espaço para novos aliados, novos caminhos, e novas oportunidades. Precisamos estar preparados para seguir em frente, expandindo nossas vivências e experiências, como um soldado que, após uma batalha difícil, encontra forças para continuar a marcha. No entanto, assim como em uma guerra, é importante honrar os que partiram, guardando-os como heróis em nossa memória, valorizando as boas lembranças que deixaram e o impacto que tiveram na nossa jornada.

Sinto que a vida é um grande laboratório experimental, onde todas as coisas materiais são as únicas formas que encontramos para acreditar nas lições da existência, através do ver, sentir e tocar. No entanto, para se desprender e desvincular de um passado que te prende, é preciso muita imaginação, intuição e uma profunda confiança dentro de si. Posso até estar viajando nessa reflexão, mas quem pode garantir que a sua vida não seja também uma história criada pela sua imaginação? Não é mesmo?

Todos nós estamos, de alguma forma, presos aos nossos próprios pensamentos e mentes. O que realmente muda é a maneira como fomos ensinados a viver e, o diferencial, é como você escolhe ver além do que te ensinam.

Viver esse processo foi essencial para mim, pude perceber a imensa capacidade que tenho de criar cenários na minha mente, e como fui determinada, comprometida e destemida ao ressignificar minha própria história, buscando uma versão melhor de mim mesma para viver.

Mas ainda existe uma segunda prisão…a prisão do futuro!